Da meta de 30 minutos ao “resgate” no lavrado
Atualizado: 28 de jun.
Dizem que o papel do jornalista é relatar a notícia... só que, dessa vez, eu quis fazer parte dela.

Eu fui até a 1ª Corrida de Orientação do TJRR com uma missão simples: cobrir o evento, gravar imagens, entrevistar os participantes e voltar para casa com uma matéria bonita sobre qualidade de vida, integração e esporte.
Só que o clima de aventura estava contagiante e eu pensei: “Por que não testar até onde consigo chegar?”
E foi exatamente aí que começou o erro.
A ideia era participar da corrida, fazer umas imagens legais no percurso e concluir tudo em tempo recorde. Quando o Maurício me perguntou em quanto tempo eu achava que faria a prova, na minha cabeça meia hora parecia um bom chute. Afinal, a gente ia em dupla.
“Minha expectativa é que a gente cumpra esse trajeto em pelo menos meia hora.”
Maurício foi mais realista. Ele disse que minha meta “não existia” e que pretendia terminar em menos de uma hora, vivendo ali o sonho de ser um explorador da natureza.
Spoiler: ninguém terminou em meia hora. Nem em uma hora. Nem perto disso.
O lavrado não perdoa

Logo nos primeiros minutos, ficou claro que a corrida não era só “andar olhando o mapa”. Tinha que entender o terreno, localizar os pontos, interpretar as marcações e, principalmente, aceitar que o lavrado roraimense tem personalidade própria.
Às 8h22, a gente já tinha um boletim preocupante: saímos às 7h57, perdemos o primeiro ponto, encontramos outros dois basicamente porque alguém ajudou e ainda faltavam 16 marcações.
Mas tudo bem. Vida que segue. Ou pelo menos era isso que eu dizia tentando manter alguma dignidade diante da câmera.
No caminho, descobrimos o famoso “matinho móvel”, ou como chamaram depois, “barba de bode”: uma vegetação que dobra quando você pisa e leva seu tornozelo junto. É o tipo de coisa que parece pequena até você perceber que seu pé está negociando diretamente com a gravidade e seu corpo inteiro começa a pedir exoneração da aventura.
O mais engraçado é que, entre os 18 pontos, a cada três havia pontos de hidratação. Mas de que isso servia se a gente passava mais de meia hora tentando encontrar cada um?
Teve um momento em que o jeito foi recorrer ao capim e soltar a brilhante frase:
“Água do capim, assim quem sobrevive na mata.”
Confesso que ri quando assisti ao vídeo e me vi todo pomposo, falando como quem realmente sabia o que estava fazendo.
O entusiasmo entrou pelo cano

Depois de muito andar, olhar mapa, virar mapa, desconfiar do mapa e desconfiar da nossa própria existência, veio a primeira grande conquista: encontramos um ponto de controle sozinhos.
Sozinhos.
Sem ajuda.
Um marco histórico para aquela dupla.
O problema é que era o ponto errado.
A gente estava procurando o ponto 5, identificado no mapa como 49. Chegamos cheios de orgulho em uma árvore, certos de que finalmente tínhamos entendido a lógica da prova. Só que o ponto era o 53, correspondente ao ponto 14 do percurso.
Na hora, a única conclusão possível foi:
“A gente está muito perdido e muito errado nessa corrida. Mas estamos adiantados.”
Não confie em ninguém
Uma coisa ficou bem clara durante o percurso: não confie em quem também está perdido.
Era normal encontrar alguém perguntando se a gente tinha passado por algum ponto ou se tinha visto alguma marcação específica. E, de fato, os mapas eram diferentes, porque havia várias categorias na prova. Mas, vez ou outra, os encontros aconteciam durante o trajeto e, claro, uma ajudinha para encontrar algum ponto sempre vinha bem.
O problema era entender as instruções.
“Segue reto, você vai descer, subir e, do outro lado da mata, vai encontrar o prisma.”Parece um comando simples. Na prática, é quase uma profecia indígena com interpretação livre. Você segue reto, desce, sobe, entra no mato, sai do mato, olha para o mapa, olha para o céu e começa a questionar todas as escolhas que te levaram até ali.
E isso aconteceu com mais frequência do que eu gostaria de admitir.
A imensidão do lavrado
Para encontrar os pontos, a gente precisava achar prismas laranja e brancos. Parece fácil. Não era.
Eles estavam no chão, no meio do mato, entre árvores, na altura dos olhos ou em algum lugar que, teoricamente, fazia sentido para quem sabia onde estava. O problema é que esse claramente não era o nosso caso.
Foi indo do ponto 8 para o ponto 9 que a situação ficou mais crítica. Andamos por muito tempo olhando o mapa, olhando para frente e tentando descobrir se deveríamos seguir reto ou na diagonal.
Os postes à nossa frente eram os mesmos do mapa? A indicação de “árvore diferente” realmente apontava para uma árvore diferente ou era só mais um caimbé entre tantos outros? A gente estava perto? Longe? Em Roraima ainda?
Nessa altura, já eram mais de duas horas de prova e, na minha cabeça, a desistência depois do ponto 10 era mais do que certa. Era uma decisão madura. Estratégica. Quase científica.
O “resgate” chegou

Depois de mais de duas horas de tentativa, suor, caminhada e uma interpretação cartográfica no mínimo questionável, apareceu um carro de apoio no percurso.
Para os outros participantes, era orientação.
Para nós, era praticamente a cena final de um filme de aventura.
Naquele momento, ficou claro que a missão esportiva tinha perdido força, mas a missão jornalística seguia firme. Afinal, ainda tínhamos vídeo para gravar, entrevistas para fazer e um compromisso muito sério com a produção de conteúdo.
Então resumimos a situação da forma mais honesta possível:
“O resgate acabou de chegar no meio da pista para que a gente consiga terminar o que começou, que é a mídia.”
E assim, com a elegância de quem foi vencido pelo mapa, voltamos ao ponto de concentração.
Considerações finais de um quase explorador
Quando retornamos, a equipe nos recebeu com muito bom humor. Ninguém precisou acionar uma operação de busca internacional, ninguém desapareceu para sempre e o NUCRI voltou com material suficiente para contar essa história.
No fim, a promessa dos 30 minutos ficou perdida em algum ponto do lavrado, provavelmente perto de uma árvore distinta que nunca encontramos.
Mas valeu a pena.
“Eu disse que ia cumprir a prova em meia hora, mas a gente ficou duas horas e quarenta perdido no mato. O resgate chegou para ajudar a gente a voltar, já que a gente tinha conteúdo de mídia para fazer. Se não fosse por isso, acho que em três horas e meia eu cumpria a prova. Mas foi muito legal.”
Moral da história: a Corrida de Orientação exige preparo físico, leitura de mapa e humildade. Muita humildade.
E talvez, só talvez, da próxima vez eu diga que termino em três horas. Aí, quem sabe, eu surpreendo.
Texto por: Mairon Compagnon, Chatgpt e Gemini
Vídeos: Mairon Compagnon e Mauricio Fernandes
Fotos: Giovanni Reis
21 de maio de 2026




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